terça-feira, 7 de maio de 2019

QUAL A LIGAÇÃO DO NAZISMO COM A ESQUERDA?

Por Erick, O Caçador




    Graças à fala do Presidente Jair Bolsonaro, que disse "não ter dúvida que o Nazismo era de Esquerda", surgiu um amplo debate a respeito da veracidade dessa afirmação sobre o Nacional-Socialismo (Nazismo) ser um fenômeno político de Esquerda. No que se baseia tal entendimento? Vamos tentar aprofundar a questão nesse artigo, dando aos leitores elementos suficientes para concluir definitivamente por si:


    GENEALOGIA DO NAZISMO - Segundo admitia o próprio Adolf Hitler, o Nacional-Socialismo Alemão foi abertamente inspirado no Fascismo, que havia sido criado alguns anos antes, na Itália. Dado que o Fascismo serviu de modelo para o Nazismo, é comum o uso do termo "Nazi-Fascismo", referindo-se ao conjunto dos fenômenos políticos de mesma orientação, ocorrido nessa época em vários outros países (inclusive no Brasil). Isso faz com que o entendimento do Fascismo e de suas origens seja crucial para traçar a genealogia do Nazismo.


   Acontece que o criador e principal líder do Fascismo, Benito Mussolini, anteriormente era um marxista de carteirinha, filiado ao Partido Socialista Italiano, portanto um homem de Esquerda. O próprio pai de Mussolini foi um Socialista fervoroso, ferreiro de profissão, tendo dado ao filho o nome de Benito, para homenagear o revolucionário mexicano Benito Juárez. O filho seguiu ao pai em suas concepções políticas, sendo fortemente influenciado pelas idéias do Sindicalismo Revolucionário proposto originalmente pelo francês Georges Sorel. Nos primeiros anos do século XX, Benito militou ativamente nos movimentos esquerdistas italianos, tendo estado à frente de jornais de divulgação das doutrinas de Karl Marx voltados para a criação de um ambiente pré-revolucionário em seu País. De fato, até hoje Mussolini é considerado um dos Socialistas mais proeminentes da Itália, devido à sua importante participação como liderança do movimento Socialista, tendo até sido preso algumas vezes por essa militância ardorosa e destacada. A orientação política do PSI era o marxismo de viés sindicalista, também conhecido como "Trabalhismo" (tal como o brasileiro Partido dos Trabalhadores, em suas origens).


     Para esclarecer qualquer dúvida, o Socialismo é uma etapa que antecede e prepara a implantação total do Comunismo numa Nação, segundo a proposta do teórico Karl Marx (criador do Comunismo e de cujo nome origina-se o termo "marxista").




    Mussolini só veio a romper com o PSI em 1914, quando divergiu da orientação do Partido com relação à participação da Itália na Primeira Guerra Mundial: Benito era a favor, em certa circunstância, enquanto o PSI era totalmente contra. Em face disso, ele foi expulso do PSI e, posteriormente, alistou-se no Exército Italiano, tendo lutado até 1917, quando deu baixa por ferimentos sofridos no front. Rompido com o Partido Socialista, em 1919 Mussolini fundou os FASCI ITALIANI DI COMBATIMENTO, que depois viriam a se tornar o Partido Fascista. A proposta Fascista era ideologicamente Socialista, pois baseava-se no Sindicalismo, na intervenção do Estado na Economia (antiliberalismo), no Governo como expressão da vontade das massas e no culto à personalidade do líder (como acontecia na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, com Lênin). Unicamente por conta da desavença pessoal do PSI com Mussolini, o Partido Fascista posicionou-se como anti-socialista.


    Formando milícias para a "Luta de Classes" que se distinguiam pelo uso padronizado de camisas negras, o Movimento Fascista realizava marchas no campo e nas cidades, impondo terror aos adversários e, não raro, utilizando a violência nos seus atos políticos (exatamente como faz o MST, no Brasil, usando camisas vermelhas). Em 1922, Mussolini dirigiu seus camisas negras numa Marcha sobre Roma e, sob tal coação, o Rei Vitório Emanuel III nomeou-o primeiro-ministro da Itália. A partir daí, Mussolini tornou-se ditador do País, subordinando todos os Sindicatos ao Governo e banindo os demais partidos políticos, implantando censura dos meios de comunicação, perseguindo seus opositores (socialistas, inclusive) e utilizando as milícias de forma agressiva para manter a sociedade civil sob controle total (qualquer semelhança com o Socialismo Bolivariano da Venezuela não é mera coincidência). Para conquistar o apoio das elites e acalmá-las, Mussolini afirmou que o Fascismo era contra o Bolchevismo Marxista-Leninista (Ditadura Militar do Proletariado, também inspirada nas idéias de Karl Marx, que regia a contemporânea União Soviética, então governada por Lênin).



    Apesar de ser antiliberal e antidemocrático, portanto um opositor - em princípio - das Democracias Capitalistas Liberais do Ocidente (França, Inglaterra, EUA, etc), Mussolini se colocou para a aristocracia e os industriais italianos como uma espécie de "terceira via", pois não tencionava destruir a propriedade privada dos meios de produção (como o Marxismo Bolchevique faria), embora também não abrisse mão do Trabalhismo e de manter a economia sob estrito controle estatal (ao contrário do que o liberalismo propunha). A idéia era a de que os capitalistas que tivessem alinhamento com o Governo Fascista receberiam contratos garantidos do próprio Estado, contanto que concordassem em conceder certos direitos aos trabalhadores. A vantagem para os Capitalistas era a de que o Governo manteria os trabalhadores sempre dóceis, através do controle dos Sindicatos. Na relação custo-benefício, os Capitalistas tinham seu lucro garantido pelos impostos do contribuinte, enquanto as massas teriam uma renda mínima padronizada e outros benefícios - isso, se apoiassem o Regime Fascista. Como no Regime Socialista Soviético, o Estado Fascista era coletivista e totalitário, isto é, o interesse do coletivo (Estado) sempre estava absolutamente acima dos interesses dos indivíduos.


    Tal abordagem econômica, propondo o então inédito intervencionismo do Estado na economia capitalista, foi objeto dos estudos do economista John Maynard Keynes, cujas teorias vieram a salvar o próprio Capitalismo, na crise de 1929. Segundo chegou a dizer Keynes, o lugar do mundo onde suas teorias foram mais correta e amplamente aplicadas foi na Alemanha Nazista, por sinal. Para efeito comparativo, até então, o único País do Mundo em que o Estado interferia na economia era a União Soviética, onde a Ditadura Bolchevique havia estatizado todos os meios de produção e controlava totalmente o mercado pela  planificação de metas produtivas, através dos famosos Planos Quinquenais. Podemos dizer, por conseguinte, que o Fascismo foi filho rebelde do Socialismo, porque apesar do parentesco evidente, não se propunha a implantar o Comunismo, da forma que os Bolcheviques Soviéticos estavam fazendo. Em suma, o Fascismo era um tipo novo de Socialismo, que propunha a convivência com o Capitalismo (como modelo econômico), enquanto mantinha um projeto de Poder com controle absoluto do Estado pelo Partido Único, através do discurso social trabalhista e da ação intimidatória de sua militância, no mesmo modelo populista do Socialismo convencional. Para garantir que o próprio povo jamais questionasse o Estado, o Regime Fascista procedeu o desarmamento dos cidadãos e iniciou uma massiva doutrinação ideológica nas escolas e universidades - que incluiu a exaltação à personalidade de Mussolini - exatamente como Lênin já havia feito na URSS. 




    Praticamente TODOS os Partidos políticos da Esquerda Brasileira atual são fascistóides em seus programas e atuação (incluindo PT, PC do B, PSOL e PSTU, entre outros). A exceção fica apenas para as siglas mais à extrema-esquerda, que ainda sonham em implantar o Bolchevismo radical clássico, com fuzilamento massivo dos "burgueses", expropriação da propriedade privada e economia estatizada totalmente planificada pelo Estado, com o objetivo de chegar ao estágio do Comunismo.


    Na prática, a adesão do capitalismo italiano ao intervencionismo estatal fez a economia daquele País atravessar a Crise Mundial do Capitalismo de fins dos anos 20 com tranquilidade. Tal fato deu destaque extraordinário ao modelo político Fascista, que foi entendido como fórmula de renovação e prosperidade para um Mundo assolado pela terrível crise econômica. O Fascismo ostentava pompa imperial em grandes solenidades marciais presenciadas por multidões e anunciava um extraordinário renascimento do Antigo Império Romano. É aí que entra Hitler e o Partido Nacional-Socialista.



     O PARTIDO NACIONAL-SOCIALISTA DOS TRABALHADORES ALEMÃES - Em 1919, depois da derrota alemã na I Guerra Mundial e estabelecimento do Regime Republicano no País, um grupo de nacionalistas fundou o Partido Socialista dos Trabalhadores Alemães, rapidamente rebatizado como Partido dos Trabalhadores Alemães (DAP - Deutsche Arbeit Partei). Desde o início, o Partido dos Trabalhadores Alemães se posicionou contra o Partido Social-Democrata Alemão e contra o Partido Socialista Alemão, pelo motivo de que as duas últimas siglas seguiam orientação Marxista-Leninista internacionalista, isto é, recebiam ordens de Moscou para estabelecer uma revolução internacional, tal como o já citado Partido Socialista Italiano. Sendo os criadores do DAP autênticos nacionalistas, viam com desprezo o internacionalismo das duas outras agremiações alemãs ligadas ao trabalhismo. Por declarar-se contra o internacionalismo socialista, o DAP conseguiu atrair para suas fileiras os veteranos de guerra desmobilizados das Forças Armadas, que formavam, nessa época, uma massa de desempregados.





    Explica-se: quando da rendição alemã na I Guerra Mundial, nenhum soldado estrangeiro havia entrado na Alemanha, de forma que a capitulação da Nação era inexplicável aos olhos dos combatentes do front - que, afinal, estavam suportando agruras inimagináveis em defesa da Pátria e morrendo aos milhares, diariamente, nos campos de batalha dentro do território inimigo. Ocorre que o Kaiser Wilhelm II capitulou por causa da onda de greves e manifestações promovidas no interior da própria Alemanha por revolucionários Socialistas e Social-Democratas (duas correntes do marxismo), que intencionavam expandir a Revolução Russa para a Alemanha! O Imperador, já abatido com o enorme morticínio da guerra, entendeu erroneamente que o seu povo não queria mais lutar e aceitou a rendição, para consternação das Forças Armadas. Esse fato criou o sentimento de "punhalada pelas costas" que os milhões de veteranos passaram a sentir pelos Comunistas, pois que estes traíram a Pátria Alemã, em plena Guerra Mundial, pelas idéias de Karl Marx. Uma curiosidade é que a maioria dessas lideranças revolucionárias esquerdistas de 1917 eram judeus.


    Os fatos acima elencados, junto com a miséria e inflação galopante que assolaram a Alemanha durante todo os anos 20, criaram no senso comum popular a crença de que o judaísmo e o comunismo eram ligados. As dívidas de guerra exorbitantes, pagas pela Alemanha a bancos de propriedade judaica também afloraram o anti-semitismo popular. A combinação das necessidades materiais, da humilhação nacional, do anti-semitismo popular, do inconformismo com a derrota na guerra e do caos político, deu espaço para que o radicalismo avançasse na preferência popular. Nesse contexto, o DAP se declarava em guerra contra o Bolchevismo e contra o Judaísmo internacional, e a favor do nacionalismo germânico.




    Ainda em 1919, Adolf Hitler entrou no Partido, rapidamente se destacando por sua oratória e se constituindo a liderança principal. Em 1920, a sigla muda pela última vez de nome: agora é o PARTIDO NACIONAL-SOCIALISTA DOS TRABALHADORES ALEMÃES (Nationalsozialitische Deutsch Arbeit Partei - NSDAP). Por "Nacional-Socialismo", se entendia um Socialismo eminentemente de raiz Alemã, contrário ao Socialismo Internacionalista Marxista (chamado pejorativamente Judaico-Bolchevismo pelos nazistas), bem como em total repúdio pelo Tratado de Versalhes (acordo humilhante de rendição alemã na guerra). As propostas iniciais do Nazismo eram erradicar o Judaico-Bolchevismo da Alemanha, recuperar o orgulho nacional, reerguer o País e formar um novo Império Alemão - o Terceiro Reich. Evidentemente, tudo isso era mais fácil de falar, do que de fazer. Tal como Benito Mussolini, Adolf Hitler constituiu uma milícia partidária, os camisas pardas.


    Para conseguir os objetivos do Nacional-Socialismo, Hitler sabia que não podia contar com os vencedores da I Guerra (as Democracias Capitalistas Ocidentais). Seus olhos se voltaram para o modelo organizacional das duas alternativas que se apresentavam à sua frente: a Ditadura do Proletariado do Socialismo Soviético e a Ditadura Fascista Italiana. O detalhe importante é que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas era desprezada por ele (e por todos os Nazistas), como "ninho do Judaico-Bolchevismo" - portanto o centro da conspiração internacional que derrotara a Alemanha na Grande Guerra. Com efeito, o Fascismo Italiano afigurou-se como o principal modelo seguido pelo Nacional-Socialismo, com sua proposta inovadora de Socialismo outsider ao Marxismo-Leninismo e evidente prosperidade econômica, em contraste com o Capitalismo aparentando decadência do resto do mundo.


     A Hitler repugnava a sociedade burguesa e liberal, feita de shopping centers e arranha-céus. Com efeito, a imagética Nacional-Socialista remete - e muito - ao Império Romano ( de quem o Fascismo, supostamente, seria herdeiro). A própria saudação Nazista (com o braço estendido como uma espada) era uma saudação romana e os desfiles marciais repletos de estandartes, águias e tochas flamejantes eram o mais próximo da cenografia da época antiga clássica que uma Nação moderna jamais recriou. O Nazismo, de fato, é um Fascismo Alemão com a adição do componente ideológico racial. No mais, entende-se que o Nacional-Socialismo pretendia criar um novo homem, tal como a utopia Socialista também o sonhava. Mas o novo homem tencionado pelo Nazismo não era o Homem Comunista proposto por Karl Marx e, sim, um Super-Homem Ariano capaz de erguer o Império que eclipsaria Atenas, Esparta e Roma pelos feitos em armas e pelo brilho cultural.




     Após muitos altos e baixos durante todos os anos 20, Hitler chegou aos anos 30 como um dos líderes políticos mais influentes da Alemanha. O Partido Nazista era um fenômeno eleitoral e, para conseguir o apoio da elite industrial alemã, o Füehrer fez o mesmo que Mussolini: propôs o pacto de intervencionismo na economia, contratos estatais para os empresários e direitos trabalhistas para o povo. Em 1933, após eleições democráticas em que o Partido Nazista obteve boa votação, Hitler foi chamado a ser o primeiro-ministro da Alemanha.


    Nesse momento, Hitler e o Partido Nacional-Socialista tinham bem claro o seu projeto de Poder: 

a)Implantar uma Ditadura nos mesmos moldes do Fascismo (Partido Único, culto à personalidade do líder, coletivismo  e totalitarismo, união dos Sindicatos, desarmamento da população, doutrinação em massa através do sistema educacional e dos meios de comunicação, economia keynesiana, discurso populista e manutenção das milícias político-partidárias como forma de controle social);

b)"Purificar" a sociedade alemã dos elementos hostis ao Nacional-Socialismo: Marxistas Internacionalistas (Socialistas e Social-Democratas), Liberais, Maçons, Judeus e minorias étnicas não-germânicas. A idéia era constituir uma comunidade germano-ariana raiz, através do resgate e ressurreição da herança histórico-cultural alemã;

c)Reconstruir as Forças Armadas Alemãs e colocá-las no patamar das melhores do mundo, pelo entendimento que uma grande potência só se faz através de sua expressão militar;

d)Erguer o Reich de Mil Anos através de uma grandiosa guerra de conquista da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, cujo território extenso seria o espaço vital de que a Alemanha precisava para ser um Império Mundial, mesmo na falta de colônias ultramarinas como tinham a França e a Inglaterra. Os nazistas pretendiam fazer no Reich o mesmo que as 13 colônias norte-americanas fizeram na Conquista do Oeste ao México e aos índios: marchar pelas terras alheias fazendo valer o direito da força aos povos submetidos. A diferença é que pretendiam marchar para o Leste, anexando o território da URSS, vingando a "punhalada pelas costas" no próprio ninho do Judaico-Bolchevismo, destruindo o Marxismo-Leninismo e acabando de vez com a aterrorizante ameaça de expansão da Revolução Russa para a Europa. De fato, Hitler queria salvar o Ocidente à moda das guerras da antiguidade, com o genocídio das populações conquistadas, a destruição das cidades e da própria razão de ser do inimigo, substituindo tudo o que seria arrasado por colônias germanizadas - assim como fizeram Roma, os EUA e a própria URSS.




    A guerra pela conquista do espaço vital aconteceu, mas as coisas não foram como Hitler pretendia: o Reich de Mil Anos durou apenas doze, o Marxismo-Leninismo abocanhou metade da Europa e estendeu seus tentáculos pelo Mundo inteiro, até hoje.


    O presente artigo fica por aqui. Espero que você tenha feito seu próprio juízo sobre a ligação do Nazismo com a esquerda.




Erick Guerra, O Caçador


    

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Crônicas Policiais: "JESUÍNO BRILHANTE, DE PATU"

Por Erick, O Caçador


Jesuíno Alves de Melo Calado, conhecido como "Jesuíno Brilhante", foi o primeiro cangaceiro renomado nos Estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Nasceu em 1844 no Sítio Tuiuiú, Patu/RN, filho de família de senhores de terras. Entrou para o cangaço aos 25 anos, motivado por vingança em decorrência de briga de família, após seu irmão Lucas Alves ter sido surrado no meio da Feira de Patu, posteriormente ao roubo de uma cabra da fazenda dos Calado. O delito foi feito por pessoas da família Limão que, por sua vez, moravam no vizinho Sítio Camucá (ambas as propriedades distavam seis quilômetros do centro de Patu). Antes disso, Jesuíno era um pai de família pacato e proprietário de terras. Ao entrar no cangaço, adotou o nome "Brilhante", que havia sido usado anteriormente por um tio materno seu, o cangaceiro José Brilhante, também chamado "Cabé".

José Brilhante de Alencar Souza, nascido em Pombal/PB no ano de 1824, é considerado o primeiro cangaceiro a atuar em terras potiguares, sendo portanto precursor e influência direta na trajetória de seu sobrinho Jesuíno. José Brilhante era morador do Sítio Cajueiro (vizinho ao Sítio Tuiuiú, dos pais de Jesuíno) e foi ele quem descobriu a famosa "Casa de Pedra". Homem de armas como era, logo deu à formação geológica o devido valor como refúgio e fortaleza. É de se pensar o quanto a existência de Cabé foi importante na história de seu sobrinho Jesuíno.

Como pessoa, Jesuíno Brilhante é descrito pelos historiadores como tendo sido um homem branco arruivado, de compleição física forte e estatura baixa, honrado e cordial, com caráter reto, justiceiro, bom nadador, excelente atirador, hábil na cavalgadura e no jogo de faca, exímio vaqueiro derrubador e laçador de gado. Atirava com as duas mãos e não perdia um tiro sequer. Também era dono de rígidos padrões morais e nunca consentiu que os membros de seu bando "pegassem no alheio" ou praticassem violência contra os mais fracos, por exemplo. Em muitos sentidos, a figura de Jesuíno é diferenciada no contexto do cangaço.


Seu primeiro crime foi no dia do Natal de 1871, quando assassinou a facadas o negro Honorato Limão, responsável pelo espancamento já citado do seu irmão e autor do furto da cabra. Tendo sido anteriormente exposto publicamente como "ladrão de bode", Honorato resolvera se vingar no mais fraco e "pegou" o irmão caçula de Jesuíno para extravasar seu ódio: juntou-se com mais uns parentes e baixou o cacete no adolescente, que fora ver sua namorada na Vila de Patu. Isso foi no dia 24; No dia 25, Jesuíno chamou o Limão na ponta do aço. Em represália, os Limões atacaram o Sítio Cajueiro e mataram a punhaladas um primo de Jesuíno. Agora era guerra. Então, Brilhante formou um bando e passou a atuar de forma guerrilheira contra a unida família dos Limões e quem mais com eles se aliasse. Consta que os Limões eram apaniguados com famílias de políticos de Brejo do Cruz (os Lobatos) e de Catolé do Rocha (os Lobos), na vizinha Paraíba, e que estes aliados mandaram reforços em homens e armas para guerrear contra os Alves.

Interessantemente, houve também um peculiar componente racial na questão, pois os Limões eram negros livres e, ao mesmo tempo, parte do governo opressor (no sistema chamado Coronelismo), enquanto a família de Brilhante, loira de olhos azuis, compunha a oposição política ao lado dos pobres e necessitados... Isso, lembremos, ainda na vigência da escravidão no Brasil, que só acabou definitivamente em 1888! É realmente uma inversão dos clichês raciais nacionais que, sem exceção, colocam "elites brancas" como opressoras de "pretos e pobres", não dando espaço para a discussão da possibilidade de situações diferentes ocorrerem, ainda que localmente (como é exatamente o caso tanto aqui, como na monarquia negra e escravocrata do Quilombo dos Palmares ou nos espaços urbanos modernos dominados por facções criminosas prisionais, predominantemente militadas por pobres de pele escura).


Entre 1871 e 1879, o bando conhecido como "os Brilhantes" atuou na região circunvizinha a Patu, instalando seu principal reduto na Serra do Cajueiro (extensão da Serra do Lima), local da gruta conhecida como "Casa de Pedra", uma furna espaçosa situada em terreno dominante no Sítio Cajueiro. De cima desse "bunker" natural, os milicianos de Jesuíno vigiavam grande extensão do terreno em derredor, tendo a condição de perceber qualquer movimento com muita antecedência, o que frustrava qualquer força atacante. Nessa região pobre e assolada pela seca, comboios de comida eram mandados pelo Imperador D Pedro II aos flagelados, a título de "auxílio de emergência". Esses mantimentos eram recebidos pelos ocupantes de cargos públicos ligados aos políticos poderosos, sendo posteriormente vendidos em barracões particulares, numa mostra de que a corrupção e o desvio de recursos públicos é prática antiga no Brasil. Principalmente durante a grande seca de 1877-1879, famílias inteiras se juntaram aos Brilhantes nos assaltos aos tais comboios, bem como aos armazéns. Toda a comida arrecadada era distribuída gratuitamente ao povo pobre.

Tais saques e outras ações ligadas à defesa da honra das mulheres, proteção de idosos e combate aos desmandos dos capangas de Coronéis locais, fizeram de Jesuíno Brilhante muito bem-quisto no seio da população e dono de uma aura cavalheiresca e romântica - sendo considerado realmente uma espécie de Robin Hood. Dos tantos nomes ligados ao ciclo do cangaço no Brasil, ele é o único que merece autenticamente o título de "bandido social", pois nunca recebeu dinheiro pelos seus atos de "justiça com as próprias mãos" - que foram dirigidos apenas contra tiranos do povo desassistido e, naturalmente, contra as forças que o perseguiam. A verdade é que ninguém o considerava um criminoso, a não ser o judiciário.


Existem vários relatos dos feitos de Jesuíno Brilhante, alguns documentalmente comprovados, outros fazendo parte das tradições orais sertanejas (às vezes exageradas ou fantasiosas), dos quais citaremos alguns. Em 1872, numa incursão ao Sítio Camucá, Jesuíno matou Francisco Limão. A partir daí, os poderes políticos ligados aos Limões procuraram envolver todos os Alves como cúmplices, resultando em prisões injustas, depredações, incêndios e humilhações inadmissíveis para a moral sertaneja da época. Os Limões, guiando tropas de soldados, por várias vezes tentaram vencer a Fortaleza da Casa de Pedra, dos Brilhantes, mas esta era estrategicamente bem posicionada e tinha uma fonte de água mineral a 200 metros, tendo resistido a diversos assédios.

Na madrugada de 19 de fevereiro de 1874, os Brilhantes atacaram a Cadeia Pública de Pombal/PB, para libertar o pai de Jesuíno e seu irmão Lucas Alves, que lá estavam injustamente presos. De surpresa, avançaram com oito homens contra os treze praças que compunham a guarnição, tendo posto em fuga três e rendido os outros dez, que não sofreram qualquer mal, conforme havia apalavrado o preso Lucas. Nessa ação, os Brilhantes soltaram 42 presos e levaram consigo todos os fuzis, pistolas e munições que encontraram. Ao final, ficaram na cadeia doze presos que não quiseram fugir e o efetivo da Guarda Nacional que fora rendido. Segundo consta, esse ataque contou com o apoio do Coronel João Dantas que, tendo depois seu nome citado como partícipe pelo jornalista Vulpis Alba (em matéria publicada no Diário de Pernambuco), pediu a Jesuíno que o matasse. Como o cangaceiro se recusou a fazer esse serviço, o Coronel se tornou seu inimigo.


No dia 30 de agosto de 1876, no episódio conhecido como "O Fogo de Imperatriz", os Brilhantes atacaram a cidade de Imperatriz (hoje chamada Martins), com duplo objetivo: matar o desafeto Amaro Limão, que estava preso na Cadeia Pública local e resgatar uma moça que havia sido raptada da casa de seus pais e estava "depositada" na residência de um certo Porfírio Leite Pinho. Nessa ousada ação, os cangaceiros subiram ocultos a Serra íngreme chegaram por volta das 18:00 H no centro urbano (localizado no topo). Foram combatidos com intensa fuzilaria e cercados pela guarnição, mas se evadiram arrombando os muros e paredes das casas vizinhas, o que surpreendeu a polícia. Então, os Brilhantes escaparam pela madrugada, passando de uma casa a outra e cantando a canção popular "Corujinha", que ficou lembrada como uma espécie de hino do bando. No imaginário popular, Jesuíno Brilhante tinha o caborje mágico de ser invulnerável a tiros e facadas, que nunca o feririam.

Numa outra história, Brilhante pediu água numa certa propriedade, tendo encontrado a dona da casa bastante chorosa por motivo de que seu marido havia viajado e, depois disso, um patife chamado Curió fizera avanços desrespeitosos para a mulher, tendo inclusive declarado que ela se preparasse pois, justamente naquela noite, ele iria dormir com ela. Segundo a narrativa, Jesuíno pediu que a senhora fosse dormir numa herdade vizinha e ficou sozinho na casa. Durante a noite, consoante havia ameaçado, o negro Curió se apresentou na residência, crendo que teria uma tranquila noite de estupro pela frente. Para encurtar a história: Curió foi sangrado feito um porco e arrastado para fora de casa pelos pés, direto para uma sepultura na beira da estrada. Na manhã seguinte, Jesuíno Brilhante se despediu educadamente da anfitriã, dizendo-lhe que podia ficar tranqüila, pois que o homem importuno viajara para não mais voltar... Cavalheirescamente, o cangaceiro lhe omitiu os fatos violentos ocorridos. Também é bastante falada uma situação em que Brilhante matou um escravo chamado José, por conta de uma tentativa de estupro.

Vale salientar que o crime de estupro ainda não era previsto no Código Penal Brasileiro dessa época, de forma que a questão da honra das donzelas e do recato das mulheres casadas (mesmo no caso de violência sexual) era tida como um valor moral a ser preservado apenas na esfera particular, sendo usual a "lavagem da honra com sangue", contanto que houvesse um macho para tal. Um outro detalhe também digno de se observar é que nos dois relatos acima, os negros citados são vítimas de Jesuíno Brilhante porque são predadores sexuais - uma imagem bem distante do chavão renitente que mostra as pessoas de cor da época apenas como "vítimas de brutal discriminação racial". (Nota: as duas narrativas aludidas estão no livro "Jesuíno Brilhante, O Cangaceiro Romântico", de autoria do Juiz de Direito Raimundo Nonato da Silva, publicado pela Sebo Vermelho Edições)


Em meados de 1879, Brilhante viajou "à paisana" para Mossoró e foi reconhecido pelo Juiz local, tendo escapado ileso de nutrido tiroteio com forças policiais, em plena via pública. Segundo relata Câmara Cascudo, o cangaceiro limitou-se a disparar para cima, para evitar que a multidão de curiosos que assistia o espetáculo fosse ferida por ele. Ainda no mesmo ano, bandos armados a soldo da família Suassuna perseguiram os Brilhantes, sem sucesso. Há um tanto de outras ocorrências que deixo de citar pela exiguidade do espaço.


Jesuíno Brilhante morreu em dezembro de 1879, aos 35 anos, vítima de uma emboscada no Riacho dos Porcos, sopé da Serra do João do Vale, município de São José do Brejo da Cruz/PB (antiga São José dos Cassetes). Essa tocaia foi feita pela milícia liderada pelo seu feroz inimigo Preto Limão, a mando do Coronel João Dantas. O cangaceiro foi atingido no braço e no peito durante o entrevero, tendo sido levado por amigos até a comunidade Palha, onde faleceu e foi enterrado no mato. Alguns anos depois, em 1883, o crânio dele foi exumado pelo Dr Francisco Pinheiro de Almeida, levado e exibido (por décadas) em pelo menos três escolas de Mossoró. A explicação disso é que, segundo teorias científicas da época, os caracteres morais do ser humano teriam relação com sua constituição física, de modo que seria possível descobrir um criminosos "de nascença", apenas lhe analisando as conformações cranianas. Finalmente, o crânio do bandoleiro potiguar foi presenteado no Rio de Janeiro ao Prof Dr Juliano Moreira, para fazer parte de acervo museológico, a partir de onde não se tem mais notícias do paradeiro.



Atualmente, a fama de Jesuíno Brilhante perdura na tradição oral potiguar, tendo sido ele também objeto de estudo sócio-histórico (vide Câmara Cascudo, Gustavo Barroso, Ariano Suassuna e Raimundo Nonato) e personagem da literatura de cordel (vide Rodrigues de Carvalho, Nando Poeta, Gonçalo Ferreira da Silva, Poeta Abaeté, entre outros), assim como foi retratado no cinema ( no filme "Jesuíno Brilhante, O Cangaceiro" - produção brasileira de 1972) e no universo HQ ("Jesuíno Brilhante em Quadrinhos", produção potiguar independente de Emanoel Amaral, Aucides Sales e Luiz Elson). Já os sítios históricos (principalmente a "Casa de Pedra de Jesuíno Brilhante") e artefatos antigos ligados à sua trajetória não têm recebido qualquer atenção governamental, desperdiçando-se, com efeito,  um potencial turístico interessante.

Infelizmente, a figura ímpar - e certamente controversa - do "Cangaceiro Romântico" deu origem à mitologia do "bom bandido" no imaginário popular brasileiro, pensamento que até hoje tenta encobrir a malignidade da índole de fascínoras e degenerados, sob a desculpa de que simplesmente questões sociais os impeliram a ser assim ( tese que 99% das pessoas em comunidades miseráveis, com sua conduta honesta e trabalhadora, dão a prova-viva de que não procede).





Erick Guerra, O Caçador


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Crônicas Policiais: "BANDIDOS DE CORPO-FECHADO"

Por Erick, O Caçador






Na busca por proteção dos muitos perigos da vida bandida, sempre se falou que alguns criminosos supostamente possuíam pactos com forças espirituais ocultas e que usariam amuletos com encantamentos de proteção e sorte contra inimigos. Das estrelas de couro nos chapéus dos cangaceiros ( na verdade, inspiradas no Selo-de-Salomão e na antiga estrela de oito pontas de Ishtar) até os pactos com entidades nos terreiros de macumba, o rol dos artifícios alegados para ter vantagem sobre a Polícia e outros adversários é variado. Trataremos aqui do sobrenatural usado como recurso pelo crime.


Há longa tradição, no Sertão mais recuado, do uso de rezas-bravas pra livramento de acidentes como picadas de cobra ou cura de doenças. O povo mais antigo também fala de orações perversas, de uso cangaceiro, como a famosa "Oração da Cabra Preta" que daria o "envultamento" (invisibilidade) ao rezador e, noutras versões, transformaria o recitante num toco de pau ou animal. Daí, inclusive, derivaria a linha da "Reza para virar Lobisomem".



A mística sertaneja alude a rezas fortes para fechar o corpo, livrando de "ferro-frio" (facadas) e de balas, dando o caborge de "invulnerabilidade", durante o tempo em que o caborjudo não tocasse em mulher - o que lhe tiraria tais poderes.


Virgolino Ferreira, o Lampião, tinha o hábito de oficiar certo rito "engrimanço" com seu bando, semelhado a uma missa herege, fato bem registrado nas suas únicas imagens em filme, feitas por Benjamin Abraham. Quando da  morte Lampião no combate de Angico/AL (1938), foi encontrado um breviário nos seus bornais que, entre outras fórmulas, continha a "Oração da Pedra Cristalina". O próprio vestuário e equipamento dos cangaceiros do bando de Lampião era repleto de símbolos místicos tais como estrelas de oito pontas, flores-de-lis e cruzes de malta, entremeados de moedas e motivos florais.




Há um relato de que Corisco, chefe de subgrupo subordinado a Lampião, revoltado no momento da morte de sua segunda filha, teria rezado em alta voz o sombrio "Credo ao Contrário", verdadeiro aboio de chamar o Cão...


Nas zonas litorâneas, onde o espiritismo afro-ameríndio se manifesta nos terreiros de Candomblé e da Jurema Sagrada, não foram poucos os criminosos que fizeram pactos com espíritos que, alegadamente, foram malandros ou marginais em sua vida terrena. É o caso de entidades como Zé Pelintra ou os diversos tipos Pombas-Giras e Exus. A proteção desse "padrinhos", conjugada com o uso de "patuás" e "guias" (espécie de amuletos supostamente imantados com poder sobrenatural) daria ao "afilhado" o "pulo do gato" em cima de seus inimigos. A paga pela proteção seria feita com sangue do sacrifício de animais, bebidas e charutos ou cigarros.


Já no Caldeirão do Diabo (antigo Presídio João Chaves, Natal/RN), os presos comentavam sobre rituais nefandos, feitos na cela de Naldinho do Mereto, Demir e Paulo Queixada ( terrores de Natal nos anos 90). O "Trio Ternura", segundo um ex-detento, praticava magia negra e sexo grupal entre si, sendo eles bastante temidos também por essas "esquisitices". Nessa época, muitos no submundo se valeram dos feitiços encontrados no Grimório denominado "Livro de São Cipriano".

 


É comum, nos membros das Facções Criminosas Prisionais da atualidade, tatuagens com motivos macabros, representando o Diabo ou seres infernais. Se isso lhes concede algum tipo de "aliança sobrenatural" (mesmo que inconsciente) ou se é apenas pintura corporal como expressão de arte degenerada, há controvérsias.


Coincidência ou não, todos os bandidos nominalmente citados aqui tiveram mortes horríveis, depois de uma vida de danação infeliz... Maior do que Deus, ninguém!




Erick Guerra, O Caçador


Crônicas Policiais: "O MÃO BRANCA"

 Por Erick, O Caçador




 Início dos anos 80: no rádio, durante um programa de reportagens policiais, o locutor lê ao vivo uma carta assinada por certa pessoa que usa o codinome "Mão Branca". Na missiva, sem rodeios, Mão Branca dá uma lista de nomes de bandidos - e declara que todos irão morrer. Nos dias seguintes, as notícias dão conta da promessa sendo cumprida... E, definitivamente, nasce uma lenda.
Ubiratan Camilo


    Em Natal/RN, o jornalista Ubiratan Camilo, locutor do "Patrulha da Cidade" (programa da Rádio Cabugi), era o involuntário porta-voz do Mão Branca. Naquelas cartas, onde o próprio radialista era ameaçado de morte (caso não lesse no ar), a população comum via, com satisfação contida, uma previsão de "limpeza". Já os vagabundos listados, corriam para se entregar nas Delegacias mais próximas, de mala e cuia, implorando para serem presos.


    Houve vários casos, inclusive, de presos se recusarem a receber os seus alvarás de soltura, alegando que era mais seguro morar na cadeia. Os relatos são inúmeros de que,  nessa época, os cidadãos comuns podiam dormir com as portas das casas abertas, que ninguém mexia. Isso é o que dizem as pessoas que testemunharam esse período em primeira mão.

    Fenômeno semelhante ocorreu em Campina Grande/PB e em Recife/PE: Mão Branca, através de cartas enviadas à imprensa, divulgava a lista dos criminosos sentenciados à morte. Depois, apareciam os "presuntos" em matagais ou beiras de estrada, com sinais evidentes de execução. Nessas cidades, o "Efeito Mão Branca" foi o mesmo, para a Sociedade local, segundo quem estava lá e viveu o contexto.



    Herói para uns, bandido para outros - quem era o Mão Branca? Não se sabe a resposta, mas é difícil pensar que seja uma só pessoa, devido a tantas execuções, em tantos locais distantes entre si. O mais provável é que fossem grupos de cidadãos justiceiros indignados com a violência da bandidagem e fazendo justiça "com as próprias mãos". Ou, talvez, fossem quadrilhas de marginais locais eliminando desafetos - afinal, qualquer pessoa poderia escrever uma carta e assinar como "Mão Branca".

     Em vários lugares, entidades de Direitos Humanos acusaram policiais de integrarem os "Esquadrões da Morte" ligados ao codinome Mão Branca. Mas nunca acusaram uma Facção Criminosa pelo mesmo tipo de delito. Na época, já existiam o Comando Vermelho (RJ) e várias perigosas quadrilhas que assassinavam, o que sabemos que é o normal da marginália.

    No centro-sul do País, as denúncias sobre o "Esquadrão da Morte" ou o "Mão Branca", recaíram sobre a agremiação "Scuderie Detetive Le Cocq", que reunia em seus quadros juízes, promotores de justiça, médicos, advogados, policiais e outras profissões. A Scuderie Le Cocq atuou nos anos 60, 70 e 80, segundo seus estatutos, como entidade filantrópica.

    No RN, os Direitos Humanos citaram como responsáveis pelas execuções atribuídas ao Mão Branca, o Delegado Maurílio Pinto de Medeiros, reconhecido herói da Segurança Pública Potiguar, bem como sua destacada equipe - a quem apelidaram "Os Meninos de Ouro". Nada foi provado, nas investigações levadas a cabo em apuração a essa denúncia.



    A ironia é que, hoje em dia, as Facções Criminosas Prisionais filmam execuções de outros vagabundos e vagabundas, seus desafeto(a)s, e postam nas redes sociais de forma escancarada, assumindo a autoria e mostrando a cara. Há o assassinato com requintes de barbarismo, há tortura e humilhação, mutilações... Mas também há o silêncio das entidades de Direitos Humanos, que sempre têm algo a dizer das ações da Polícia e Agentes Penitenciários.

    Mas, voltando ao ponto: será que as Facções Prisionais teriam essa folga toda, numa hipotética volta do Mão Branca?

    O mistério sobre o Mão Branca persiste até hoje, a ponto de alguns jovens o considerarem uma "lenda urbana". Mas quem viveu nos anos 80 sabe que é uma história bem real...


Erick Guerra, O Caçador

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Crônicas Policiais: "ACONTECEU EM LAJES DO CABUGI"

Por Erick, O Caçador






No dia 1º de agosto de 2008, o Município de Lajes do Cabugi foi palco de uma dos maiores feitos em armas das Forças Policiais no Estado do Rio Grande do Norte. Numa estrada carroçável distante 200 metros da BR 304, já nos entornos do centro urbano, uma quadrilha de assaltantes de banco armados para uma guerra foi totalmente neutralizada em ação combinada da Inteligência da Polícia Federal,  da Polícia Civil do RN e do Batalhão de Operações Especiais da PMRN. Ao final da operação, 08 criminosos mortos e um preso, a cidade salva do ataque e, de quebra, o recado aos interessados que o Estado Potiguar não era playground para  "brincadeira de assalto a bancos". Com efeito, por vários anos à frente, o RN foi evitado pelas quadrilhas especializadas nessa modalidade, em virtude do exemplo dado em Lajes.


Desde 2007, perigosa quadrilha composta por sertanejos pernambucanos vinha estudando agir em solo potiguar. Homens experimentados no crime, no modelo Novo Cangaço (de tomar a cidade, aterrorizar a população com tiros de armas pesadas, fazer reféns, etc), com mais de dez assaltos bancários no currículo, agindo como uma unidade militar e armados até os dentes. Esse grupo criminoso estava sendo auxiliado por um comparsa paraibano de nome Daniel, que fazia as funções de coiteiro, olheiro e "cavalo" ( agilizador de fuga). O plano era o seguinte: tomar o centro da cidade de Lajes e invadir o Banco do Brasil, no momento em que certo carro-forte com dinheiro vindo da capital do Estado chegasse para abastecer a agência. Tudo estudado, planejado minuciosamente e cronometrado com precisão. A data e hora da ação seria sexta-feira, dia 01 de agosto, 11 horas da manhã. A expectativa era de deixar alguns corpos de vigilantes no chão, roubar um milhão de reais e fugir pela caatinga, para fora do RN.


Um detalhe: o bando estava no grampo da Polícia Federal, sendo monitorado dia e noite, com bastante atenção a seus preparativos. Outro detalhe é que o BOPE-RN havia concluído bem recentemente uma edição do COESP ( Curso de Operações Especiais), formando uma safra bem quentinha de "caveiras" na "ponta dos cascos", prontos e rezando para cumprir qualquer missão...




Há algum tempo, o vagabundo Daniel estava hospedado numa pousada situada na aprazível cidade vizinha de Angicos, de onde se comunicava com seus parceiros. Faltando uma semana para o "Dia D", o restante quadrilha chegou na região, a modo guerrilheiro, acampando na caatinga e pernoitando todo dia num lugar diferente. Daniel  levava ao acampamento mantimentos e "passava a fita" das novidades na movimentação em torno do alvo dos criminosos. Enquanto isso, as Forças Policiais realizavam seu apronto operacional... Já a população de Lajes, nem desconfiava do jogo de xadrez em andamento, como sói acontecer nos capítulos da Guerra Civil da Segurança Pública. Esse é um cenário corriqueiro desse Conflito de Baixa Intensidade, no Brasil.


Na verdade, Lajes já havia sofrido assalto semelhante três anos antes. Os integrantes desse primeiro assalto haviam sido presos pouco tempo depois, na cidade de Parnamirim/RN. Mas muitos deles já estavam em liberdade, graças aos sobejos benefícios legais a que os criminosos tem direito, infelizmente, nesse Brasil de Meu Deus. Teriam ligações com essa nova investida? No mínimo, seu exemplo fez escola, pois era evidente a similitude do plano criminoso.


A quadrilha prestes a atacar tem oito vagabundos em armas e vão usar uma caminhonete S-10 para o combate. Dispõe de três fuzis mini ruger 5.56 mm, uma metranca .30, três escopetas .12 de repetição, três pistolas 9mm, três pistolas .380, farta munição, uma granada de mão e grande quantidade de grampos metálicos para "minar" estradas e furar pneus de carros que, porventura, persigam o bando. Daniel, comparsa protegido na vizinhança, fazendo a retaguarda, toma conta de dois automóveis (um Vectra e um Siena) e de uma motocicleta Strada, veículos azeitados para a fuga. O moral da quadrilha está alto. Estão mais do que preparados para a empreitada, no dia certo, na hora azada.


Dia D: Desde a barra do clarear, os assaltantes "linha de frente" carregam bornais e mochilas individuais com rapadura, farinha, garrafas de água mineral, terços e "santinhos" com imagens impressas de sua devoção. De uniformes camuflados, aguardam na caatinga espinhenta, enquanto o Sol se ergue. Estão com o Diabo no coração e armas nas mãos, só esperando o sinal do olheiro Daniel, para entrar de sopetão na pacata cidade e meter o aço.


Uma coisa eles não sabem: nessa hora, Daniel já caiu para a Polícia - e entregou até a Mãe de Pantanha. Também ignoram que a madrugada sertaneja da véspera deu entrada a 20 homens de preto no Teatro de Operações. Sob o manto da noite, esses abnegados combatentes montaram uma posição de emboscada, na via de acesso escolhida pelos criminosos para invadir a cidade. Há outras posições tomadas pelas Forças de Segurança, mas vamos resumir o relato.



A manhã se adianta, com todas as peças dispostas no tabuleiro.


Pouco antes das 11:00H da manhã, a S-10 arranca pela estrada carroçável, mesmo sem o sinal de Daniel. É que a exatidão do horário da ação importa e as últimas notícias dão conta de que o carro-forte está cumprindo o itinerário na marca. Se o dinheiro entrar no cofre, já complica o cronograma dos bandidos. Tudo depende de chegar a tempo de surpreender os malotes sendo transportados para o interior da agência. Com Daniel fora de contato, o líder do grupo toma a decisão de "meter o banco na tora", pois a oportunidade era aquela! Para os vagabundos é fazer e sair, literalmente "rápidos, como quem rouba".


Em acelerada marcha para o combate, a S-10 avança para o centro urbano de Lajes de Cabugi. A poeira levanta no rastro da caminhonete. Dois assaltantes vão na cabine, os seis outros estão aboletados na carroceria. Nessa hora, cada um deles está de bala na agulha e sangue no olho: vão matar ou morrer, para roubar! E Entre eles e seu objetivo, uma surpresinha: a patrulha do BOPE.


Inadvertidamente, a caminho do assalto, os Novos Cangaceiros entram na "zona de morte" da emboscada dos caveiras... Aí, a cantoria de 7,62 mm troa com força: numa chuva de balas, se o bebê chora, mamãe nem ouve!



O veículo é pipinado na fuzilaria e estanca, quando os dois vagabundos na boléia se despedem da vida. Na carroceria, o côco é seco: quem estava apostando de matar, seu projeto virou por cima de si! 


Os militares vêem um dos ladrões cambalhotando de costas, como que procurando proteção detrás da carroceria. Hei! Pegue rajadas no automático! Carregadores são trocados, o cheiro de pólvora incensa a caatinga. Depois, vem o comando de "assalto!" - E os Forças Especiais atacam a pé, em linha, arrostando sobre posição dos Novos Cangaceiros. Gritos de guerra, mais disparos, nessa hora do vamos-ver: é faca na caveira! Mas já não há mais qualquer resistência...


Dentre os mortos, está o que "caiu de cambalhota" para trás... É que havia sido torado no meio, por uma rajada certeira que lhe serrou o "vazio" e partiu a coluna! O cenário em derredor da S-10 é um arranjo aleatório de corpos, cacos de vidro, sangue, projéteis de chumbo, tripas e o potente material bélico dos "cabras"... Os vagabundos saíram de cidades pernambucanas como Cabrobó, Caruaru e Petrolina, para mexer com o sertão potiguar.. E acharam o chapéu da viagem!



Depois, o trivial: Polícia Federal isolando a área, imprensa cobrindo o "furo", perícias, reboliço e os comunicados oficiais. E, como de praxe, algum(a) babaca (aqui e ali) criticando as instituições e os homens que, na verdade, mereceram e merecem elogios e respeito, pela competência, bravura e heroísmo. Quem poupa os maus, pune os bons.



Em 2008, o mês de agosto já começou entre um susto e um alívio naquela região interiorana. A caveira sorriu, alguém achou ruim, mas o Estado do Rio Grande do Norte inteiro teve alguns anos de trégua, da parte das quadrilhas de assaltos à banco - isso é um fato.





Quanto à Lajes, continuou linda, com o horizonte dominado pelo Pico do Cabugi que, dizem alguns historiadores, é o falado "Monte Pascoal" da Carta do Descobrimento do Brasil, lavrada por Pero Vaz de Caminha... Mas essa é outra história!




Erick Guerra, O Caçador

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Crônicas Policiais: "A MORTE DE VALDETÁRIO CARNEIRO"

Por Erick, O Caçador


Na noite de 10 dezembro de 2003, no Sítio Pau de Leite, Município de Lucrécia/RN, morreu em confronto com a polícia o assaltante de bancos Valdetário Benevides Carneiro, renomado líder de quadrilha e considerado um dos protagonistas do surgimento do chamado "Novo Cangaço".





Natural de Caraúbas/RN, a trajetória de Valdetário Carneiro é repleta de episódios que ficaram de forma controversa no imaginário popular, a começar de sua iniciação como fora-da-lei, supostamente ocasionada por uma prisão por crime que não teria cometido. No papel e com direito ao devido processo legal, consta que Valdetário, mecânico e dono de oficina, recebeu condenação por envolvimento com o roubo de um veículo Ford Pampa, acontecido na Paraíba, tendo sido ele reconhecido formalmente pela vítima e tudo o mais. Ainda hoje, no Alto Oeste Potiguar, as duas versões são faladas. O próprio "Val" afirmava que entrara na vida do crime em decorrência dessa prisão (1991), por ele considerada injusta e em virtude da qual se revoltou. A Polícia sempre afirmou o contrário, no que foi referendada pelo Judiciário, após os devidos trâmites.


Seis anos depois, após sair do regime fechado (cumprido na Penitenciária de Campina Grande/PB) e voltar a Caraúbas, o Carneiro é acusado, via boatos, de praticar assalto contra um comerciante de Mossoró. O mesmo nega participação e obriga os ladrões a devolverem o dinheiro à vítima. Mas também decide matar quem lhe acusou de ter roubado o carro na Paraíba, motivo de sua primeira prisão. Com auxílio de um primo, "Valdetáro" vai à Paraíba e mata dois: o dono da Ford Pampa e um outro que estava na hora e lugar errados.


A partir daí, inicia uma seqüência de crimes que lhe virá a render o título de "bandido mais perigoso do Nordeste" e comparações com Virgolino Ferreira, o Lampião. Entre 1997 e 2003, o bando formado por Valdetário Carneiro protagonizou várias ações criminosas espetaculares em duas linhas diferentes: a guerra contra a família Simião Pereira (capítulo à parte dessa história dramática)  e assaltos a banco cada vez mais ousados.  


Dentre esses episódios marcantes estão o assassinato do médico João Pereira e de uma enfermeira, no centro de Caraúbas, a tiros de fuzil AR-15 (23/12/1999); O resgate cinematográfico de Valdetário (que havia sido preso novamente) da Penitenciária de Alcaçuz pela sua quadrilha (05/11/2000), quando foi libertado junto com mais 27 presos (na ação, ficou paralítico um soldado PM, em decorrência de ferimento à bala); A emboscada na RN 117, nas alturas de Lagoa do Pau (10 km de Mossoró) ao então Prefeito de Caraúbas, Agnaldo Pereira, onde morreram também a esposa do mesmo, dois praças da PM e um funcionário do prefeito (07/11/2001) com mais de cem tiros de 5.56 e ponto 30, pistolas .40 e .380, além de escopeta calibre .12; O assalto a bancos na cidade de Macau/RN (31/05/2002), quando a cidade foi dominada e suas três agências bancárias (Banco do Brasil, Banco do Nordeste e Caixa Econômica Federal) foram assaltadas simultaneamente (na ação, foi morto o delegado da cidade, sendo feridos outro delegado e um agente de polícia civil). Tal seqüência de crimes bárbaros chocou a opinião pública e fez a fama da quadrilha.


Agências bancárias em cidades como Caraúbas, Apodi, Campo Grande, Umarizal, entre outras (num total extraoficial de mais de cem, inclusive em outros Estados), foram alvos do Bando. Em certo momento, Valdetário Carneiro alcançou foro de problema nacional ao ser tema do programa-denúncia "Linha Direta" da Rede Globo de Televisão. Nessa altura, a caçada a Valdetário já era uma questão de honra para as Polícias Civil, Militar e Federal... Não havia como ele durar muito.


A 10 de dezembro de 2003, denúncia anônima levou a polícia ao esconderijo de Valdetário Carneiro no sítio Pau de Leite, ermo da caatinga na zona rural de Lucrécia. O Delegado Regional de Patu, Ridagno Pequeno, com pouco mais de 20 homens reunidos às pressas, cercou a casa, durante a madrugada. Já perto de amanhecer, o latido de um cachorro alertou Valdetário que gritou: "Quem está aí?" - E principiou abrir a porta dos fundos, ao que respostaram:


- É a Polícia! - E começou o tiroteio...


Em certa altura, Valdetário Carneiro gritou, de dentro da casa: "Eu vou sair!"


Nisso, os tiros pausaram. Enquanto todos esperavam que a porta da casa se abrisse, com rendição do renegado, "Valdetáro" pula a janela, atirando de AR-15 no fogo automático. Aí, o tiroteio recomeça. Todavia o Carneiro, cercado e atirando às cegas, é um alvo fácil e tomba crivado por mais de uma dezena de tiros. 


Dentro da casa está sua esposa e um filho pequeno, que provavelmente ele tentou proteger, saindo para o tiroteio em campo aberto, tentando fuga desesperada. Se queria viver, melhor negócio era ter se rendido. 


Até esse momento, os Policiais ainda não tinham certeza da identidade do homem que jazia ao solo, mas depois confirmaram: aos 44 anos, Valdetário Carneiro, o inimigo número um das Forças de Segurança Pública, estava morto.


No dia 11 de dezembro, Valdetário Benevides Carneiro foi sepultado no Cemitério Municipal de Caraúbas, em meio a grande comoção. Muita gente vestia camisas com sua foto e, sem dúvida, parte daquele povo o celebrava como um herói. Decerto, também houve muita gente que comemorou, naquele mesmo dia...


Essa é uma história que ainda está viva no Alto Oeste Potiguar, para o bem ou para o mal.





Erick Guerra, o Caçador











quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Crônicas Policiais: "SÃO JARARACA DE MOSSORÓ"


Ao centro da foto, o bandido José Leite de Santana, vulgo Jararaca, quando preso em Mossoró (junho de 1927) 


Quem for  no Cemitério de São Sebastião, em Mossoró/RN, pode ver um túmulo muito bem cuidado, palco de adoração e idolatria, principalmente no Dia de Finados (02 de novembro). Trata-se da cova de um dos piores criminosos que já puseram os pés em solo potiguar, o cangaceiro Jararaca. Assassino, ladrão, torturador, membro de facção criminosa (no caso, o Bando de Lampião), sequestrador - tudo isso Jararaca era e morreu sendo. De forma absurda, no entanto, hoje é considerado um santo e há quem lhe atribua milagres...


No dia 13 de junho de 1927, Lampião e cerca de uma centena de outros  vagabundos de seu bando atacaram a cidade de Mossoró, após percorrer parte do Alto Oeste Potiguar deixando rastro de crimes e violência. Na ocasião, Jararaca tinha 26 anos e era líder de um dos subgrupos que compunham a vassalagem de Virgolino Ferreira. No combate que se seguiu à invasão da cidade, que foi defendida por uma milícia heróica de voluntários civis, Jararaca foi ferido enquanto tentava surrupiar os pertences e dinheiro de um seu companheiro de crimes, o cangaceiro Colchete, morto pouco antes (em combate) com um tiro na cabeça. Tendo recebido um balaço no peito e outro no pé da bunda, Jararaca foi abandonado pelo resto do bando e, então, capturado pelos defensores de Mossoró.


Prisioneiro, José Leite de Santana, vulgo Jararaca, natural de Buíque/PE e desertor do Exército Brasileiro, deu entrevistas em que entregou importantes coiteiros e detalhes a respeito de Lampião e seu grupo criminoso. Finalmente, foi passado pelas armas por ordem das autoridades, no tipo de atitude que pôs fim ao Cangaço, por um lado, mas por outro, levantou polêmica dentre as pessoas mais sensíveis que, já naquela época, preferiam perorar pelos direitos dos manos, em vez de prestar apoio e solidariedade às vítimas. Ninguém quer ser sequestrada(o), estuprada(o), torturada(o) ou assassinada(a), mas quanto pior o sequestrador, estuprador, torturador e assassino, mais próximo de ser canonizado por certa parcela de pessoas... Esse é exatamente o caso desse "São" Jararaca, o "santo" que só pintou miséria!

 Cidadãos de bem, armados, fizeram o milagre de repelir o Bando de Lampião. Hoje são esquecidos.


Reza a lenda que, em seus últimos momentos, o Cangaceiro Jararaca foi perguntado se tinha arrependimento ou remorso de algo que fizera na sua tumultuada vida de crimes, ao que o vagabundo teria feito repugnante relato: que tinha ele por vício, de maldade pura, o costume de jogar crianças novinhas para cima e aparar na ponta do facão... E que, numa dessas execuções hediondas, o neném caiu do céu olhando para ele e sorrindo, até ficar encravado no aço. Segundo o criminoso, aquela lembrança era a única coisa que lhe dava desgosto, de tudo de ruim que já aprontara.



Dia de Finados, quem for no túmulo desse covarde verá multidões rezando o terço e ouvirá a versão inventada de que "ele (o Jararaca) se arrependeu de tudo". Cuidado tenha o visitante para não se queimar nas centenas de velas, ou para não pisar na ruma de ramalhetes de flores depositados pelos fiéis desse estranho culto a um fascínora confesso e empedernido, que morreu sustentando a marra de bandido perigoso até o fim, conforme são unânimes as fontes históricas. Em contraste flagrante, os túmulos dos heróis potiguares que repeliram o Bando de Lampião ficam a poucos metros, totalmente ignorados.


Uma especulação cabível, para quem acredita nessas coisas: talvez, por influência dessas rezas para criaturas do lado do Mal, Mossoró tenha obtido a duvidosa bênção de receber, recentemente, um Presídio Federal. Afinal de contas, a alma do finado Jararaca, tão querida dos devotos, deve ter convidado outras almas penadas do mesmo naipe que a dele, para lugar tão receptivo (daí mexer os pauzinhos "do outro lado", para deixar o ambiente mais a seu gosto). No pacote do Presídio Federal, veio a cúpula da Facção Criminosa PCC e, na seqüência, essa organização criminosa abriu sua filial potiguar. Como reação, os marginais potiguares fundaram o Sindicato do Crime do RN. Com pouco, as duas Facções entraram em guerra. Eis o fundamento do milagre da multiplicação das estatísticas criminais! Desde então, as coisas foram  tão ladeira abaixo, que não apareceu quem dê jeito, até aqui! 


Parece que São Jararaca não protege Mossoró, tampouco o Rio Grande do Norte, do crime e da insegurança pública... Quanto mais se reza, mais assombração aparece!





Erick Guerra, O Caçador